domingo, 13 de setembro de 2009

08:11


O dia amanheceu sem sol, em paralelo, e como que em resposta para com os meus receios. Na realidade já o tinha como certo. O facto fora conscientemente interiorizado, tratei de arrumá-lo, horas antes na gaveta rectilínea do cérebro, que no preciso momento encontrava-se num pé de guerra sem precedente. Mantinha-se em plena desarrumação. Quando na realidade aconteceu, limitei-me a não saber como lidar com o facto. Sei que senti o coração a comprimir-se até ao limiar da sua existência numa asfixia que agoniava. Ia prensando os sentimentos até à sua extinção. Foram horas que passei estirado na cama, vividas entre voltas e reviravoltas constantes em busca da melhor posição. Aquela que nunca chegou. A tal que fosse capaz de amenizar a dor que pairava sobre mim. Observei as estrelas, pela janela escancarada, vi-as lá no alto reluzentes. Também assisti ao momento em que perdiam vagarosamente a sua beleza, como se envelhecessem e lhe roubassem o brilho. Até que por fim desaparecem por si só, dando lugar a um céu órfão e abandonado de escuridão, do calor que à momentos o preenchida. Não pude deixar de me sentir solidário e de identificar com o estranho fenómeno, que funcionava em jeito de traição com o céu divino, que apresentava agora uma tonalidade, estranhamente avermelhada. Um prelúdio de um amanhecer que se adivinhava amargurado, mesmo desconsolado. Tratei de abandonar rapidamente a apatia da cama, vesti-me apressadamente, num ápice e mesmo ao acaso, sem grande preocupação aparente. Não me olhei por uma vez ao espelho, pois não quis contemplar o meu ar envergonhado, a memória ainda repousava quente e pronta a ser servida. Não calculei se a t-shirt envergada combinava minimamente e a preceito com o resto do traje. Queria sair, abandonar toda aquela conjectura de lembranças dolorosas. Tive urgência em sair à rua, gritar em uníssono a mágoa muda que me corrompia a alma. Optei por um caminho ao acaso, como se o imprevisto me concedesse alguma benesse. Caminho pela rua deserta de um domingo matinal, onde falta tudo. Falta o movimento caótico e citadino, que marca dia após dia, uma semana infernal que corre apressada. Qual pecador, dou graças por mover-me assim solitário, sem companhia alguma, vazio de expressão, hoje não. Hoje não quero partilhar a mediocridade do meu estado. Caminho para um final anunciado, ao qual já conheço o argumento. Sei que chegou agora, sinto que me puxa e que me vem buscar. Só quero então andar só, não me quero encontrar, como uma certeza absurda: sei que a minha companhia despida de afecto, não seria capaz de impressionar até o mais refém de sentimentos.

Revejo-me mentalmente cada palavra do manifesto esboçado por minha autoria. Aquele que me auto-impôs. Não me importou que fosse decretado como uma espécie de sentença sobre mim próprio. Não tenho como me arrepender do que foi concebido, afinal quem te devia a verdade era inequivocamente eu, e isso sem margem para dúvidas. Não tinha, nem queria fugir do crédito que sempre me atribuíste. Ainda assim, tenho plena consciência, que a dívida, não foi devidamente saldada. Sei que nunca serei capaz de te retribuir na mesma escala, no mesmo tom ímpar, que só tu consegues proporcionar. Pedia-te desculpa novamente, uma e outra vez, como se isso valesse realmente de alguma coisa. Como se na realidade pudesse atenuar algum acto efectuado com meras palavras. Como se a sua acção tivesse alguma influência efectiva. Esboço uma tentativa frouxa e mental, onde marco os nove dígitos que nos separam, mas tenho consciência que não me queres ouvir. Sei que sou fraco para o fazer. Nunca fui de insistir. Talvez seja só mais um dos defeitos que engrossam a lista dos correntes. Nunca tive a apetência de prendar o que quer que fosse entre quatro paredes.

Quero confessar-te que mesmo que não voltes a “casa”, eu continuarei a procurar-te incessantemente minha querida. Falar-te-ei mesmo que não me ouças, em mais um final de um dia corriqueiro. Como se as noites de verão nunca tivessem na realidade terminado. Como se tivesse a competência de as cristalizar em exclusivo para nós. Mesmo que não estejas cá, irei compartilhar contigo o meu dia-a-dia. Iremos rir-nos das piadas habituais, mesmo aqueles sem sentido. Ou mesmo chorar de uma das nossas derrotas. Quero que o saibas, sim! Mesmo que não estejas do meu lado, o teu espaço jamais poderá ser devidamente preenchido e eu tratarei de o manter inviolável. É teu por direito, e não existirá vendaval algum que o derrubará. Uma conquista dessas jamais poderá ser perdida, perdurará mesmo que vazia pelos confins do tempo, numa espera eterna. Numa esperança que tratarei de alimentar, mesmo que platónica.

Agora que me vejo no caís de embarque, observo-te atónito, já dentro de um navio majestoso. Corri para cá chegar, furei por magotes de cabeças e corpos que se comprimiam e agitavam à minha frente. Furei até chegar ao lugar mais desimpedido com vista para ti. E lá estavas tu, deslumbrante e encantadora, sem precisar de qualquer esforço para te destacares da restante tripulação. Era capaz de te identificar à primeira, mesmo na 5th avenue apinhada de gente movimentada. Como todos os outros, lá estavas tu, pronta a zarpar, eu cravei-te o meu melhor olhar. Esbracejava desajeitadamente, sedento da tua atenção. Nunca cheguei a saber sequer se o teu olhar se cruzava com o meu, lá do alto de tal imponente embarcação. Eu merecei que o fizesses, mereci a tua indiferença. Sei que talvez este fosse o meu último adeus, e eu tratei de me manter empenhado na tarefa, que pelos vistos, não surtia resultado algum, mas isso era o menos importante. Só queria que soubesses que eu estava ali. Ali por ti. Tu estavas à distância de uns meros metros, mas era uma distância tremendamente ilusória e enganadora, simplesmente não te conseguia alcançar, e era ver-me a tentar. Sei que irias partir brevemente, para o teu destino merecidamente feliz. O ruído à volta tornava-se insuportável, num prelúdio de que a tua partida estava por um fio. Olhei-te, tornei-te a olhar, quis gravar a tua silhueta na minha memória, para não mais deixá-la partir. Quis dizer-te por fim adeus, desejar que fosses feliz no teu novo mundo. Mas as mãos, essas, já não obedeciam. Abracei o ar, como se te envolvesse a ti, como se não houvesse amanhã. Para não mais largar. Quando abri os olhos, quis fechá-los novamente. Já rumavas em direcção ao horizonte, e eu fiquei naquele canto esquecido, mesmo quando todos os outros já se tinham resignado à partida. Eu mantive-me até te ver desaparecer na linha do horizonte, garanto-te minha querida! Não voltei costas, e mesmo quando os meus olhos deixaram de te alcançar, deixei-me ficar ali preso naquele momento. Deixei que o dia se tornasse cada vez mais negro. Afinal o meu sentimento não se coaduna com a hipótese de te deixar para trás, mesmo quando a partida é algo de inegável. Sei que partiste mas para mim, estarás no mesmo local de sempre à minha espera, tal como eu à tua, é inevitável. Imortalizei-te assim, com o teu sorriso familiar que me reconforta e acolhe, tal e qual como no primeiro dia. Podes partir, mas não te apagarás de mim.

15 comentários:

Rabisco disse...

Olá André!
Este texto, bem, este texto diz-me muito...

Uma coisa é mais do que certa, em tantos sentimentos de agonia interior, de sentimento de desigualdade e tanto que se deve a alguém, dentro de um coração magoado e reformatado...existe alguém especial que pode partir, mas mesmo sem um dia o entender, nunca se apagará de nós...

Abraço grande

Ni disse...

Não consigo sequer começar a dizer-te o quanto o sentimento emanado do teu texto me é familiar. Quase como se não fosse as letras que corriam pelos menus olhos, mas sim as imagens da minha vida.
Agradeço-te pelo apaziguamento que tive ao ler algo escrito por ti, mesmo que tal nem fosse tua intenção.

Parabéns pelo dom fantástico que revelas em cada um dos textos.

[Clap , Clap]

Beijinho*

Bia disse...

bom, MUITO BOM!!!!!!

ADEK disse...

*me* likes... Beijinho!*

Pés de bailarina disse...

Sente sempre. Guarda tudo em ti.
:')
Beijinho doce*

Katynha disse...

Os teus textos são lindos e enormeeeeeees :)

Lady me disse...

Escreves taaaanto! Isso é que é ter inspiração! :)

Mais um que gostei! :)

Ana disse...

Perfeito...

Para conhecer um pouco melhor este que tão bem escreve, deixei-te um desafio no meu blog :)

Alexandra disse...

Se eu disser algo quebro o encanto,desta vez sou breve para que o que sinto não se perca com o simples teclar:)
Obrigado,mil vezes obrigado:)

. disse...

Otimo!!!!! ... adorei o blog e estou acompanhando!!
Abraço rebelde!!!!!

Lara disse...

ha palavras que valem muito! Gostei do que li! :)

messy disse...

fantástico (:

Brid disse...

Hey! Tudo bem??? :) Desculpa ter andado tão desaparecida, mas desde que voltei para a faculdade, isto tem sido de loucos xD Além disso, mudei de blog, agora podes encontrar-me em http://bridswood.blogspot.com/

:)

Quanto ao teu texto, está perfeito, como sempre ^^

Desculpa este comentário tão resumido, mas prometo (a sério!!!) voltar ao ritmo da blogosfera e comentar-te sempre sempre que puder eheheh

Beijinho grande!

Brid*
(Joli xD)

I Believe disse...

Lindo cm smp. Desafio p ti`*** Bom fds

Andrea disse...

Oi André, antes de mais nada quero te dar os parabéns, seus textos são impecáveis, realmente o invejo(no bom sentido)por esta facilidade de expor todo sentimento em tudo que escreve, é meio incomum isso, sigo poucos blogs, sempre passo aqui e leio seus posts, mas muitas vezes não comento porque sinto que meu comentário não está à altura(Coisas da cabeça de Andrea...rs)Que bom poder desfrutar de tudo aqui, obrigada por compartilhar conosco.

Bjo!