sexta-feira, 21 de agosto de 2009

03:24



Espreito o relógio uma e outra vez numa impaciência sem motivo aparente. Repito o gesto vezes consecutivas, em jeito de confirmação, os ponteiros devolvem-me de volta com um esgar cansado uma contestação que se queda pela infinidade da madrugada fora. Miro de forma instintiva o telemóvel que repousa à cabeceira. Pulula em mim uma vontade transcendente que nasce quase nas profundezas da indolência, em lhe pegar e em lhe dar voz. Em dar voz ao manifesto ruidoso e ilusório do coração. Pego-lhe uma imensidão de vezes sem conta num trejeito hesitante, sem aparentemente reunir a coragem imprescindível, de lhe pegar com a convicção, de ouvir a tua voz do outro lado da linha. Todas as conjecturas impedem-me de ir mais além. Um além que eu quero de forma grandiosa, neste momento, acima de qualquer coisa. Tenho urgência em expressar o tanto e o muito que me preenche e faísca com uma vivacidade que desperta na sinuosidade da alma.

Haunted Home ecoa pelo quarto que repousa numa calmaria, agora desprovido da tua presença, mas preenchido por uma ligação que nos é tão só nossa, que teima em estacionar-se e passear-se nas proximidades. Enquanto isso, pela minha mente vagueiam ainda, umas últimas linhas de um diálogo ainda quente, recente, que aquece a alma. Uma réstia de sorriso desenhasse, aquela que ficou esquecida. Um sorriso de tua autoria, aquele que causaste, por mais que uma vez despoletar, nascer em mim. Findou mais uma noite em que te tive tão perto e tão longe, onde os meus sentimentos dançaram num mar revolto, viajaram em primeira carruagem numa montanha russa desgovernada. Mas acima de tudo, muito ambicionada. Combato incessantemente a intenção que grita a plenos pulmões no centro do meu ser, em te verbalizar a importância astronómica que assumes, e que qual bola de neve, cresce de forma descontrolada pelos carris do meu corpo fora.

Não cedo à tentação. Talvez porque o meu pessimismo assim obriga, empurra-me para cenários onde não o querias tanto como eu, e isso retrai-me, esfria-me a vontade. No silêncio da noite, sinto medo que não sintas o mesmo que eu, a mesmíssima vontade de proximidade constante, de um encontro idealizado vezes sem conta, um encontro de convergências desenhado pelas nossas almas. Momentaneamente, pauso o teclado, questiono-me se também, neste mesmíssimo momento, em que te trago por perto, mesmo a milhas de distância, o teu pensamento esteja em plena sincronia com o meu. Como dois ponteiros coordenados. E eis que como um indício do além, obtenho uma resposta afirmativa a essa questão que me atormenta.

Não tens pleno conhecimento de causa mas secretamente, acabei por engendrar um método quase perfeito de te atribuir as boas noites de uma forma tão própria. Nunca te confessei mas desde àquela noite sem fim à vista, que só terminou numa manhã conjunta, que durmo de janela aberta em paralelo com a maior e a mais brilhante estrela no céu. Tenho medo de a perder. De lhe perder a rota e a vista. Desde esse momento que tenho para mim como facto consumado, que és tu que me sorris lá do alto, dizes-me olá, com esse teu jeito maroto de sorrir, e eu aceno-te, tento-te abraçar como se tal facto fosse alguma vez praticável, brinco com o facto de te poder alcançar, de te tocar quase como se estivesses na palma da mão, não esbanjo um minuto que seja da tua companhia reluzente.

Nas horas menos risonhas, naquelas onde o pessimismo reina, onde coloco em causa, o facto que não serei o teu único céu resplandecente onde exalas cor. Oculto-o o excluo da mente de forma automática. Reajo, centrando-me em pensamentos de momentos nossos. Fantasio que o assim seja indefinidamente. Sempre preferir viver num mundo pautado por ilusões. Fugi dos pés assentes na terra constantemente pela vida fora. Talvez porque a realidade nunca me tenha oferecido, o que os sonhos me oferecem nesta permuta onde me sinto inequivocamente beneficiado.

Talvez porque nos tenhamos cruzado numa rota contínua de sonhos plenos de altitude, onde colidimos numa avenida de fantasia. Do que recordo vinha altiva, passo seguro, avistei-te ao fundo da rua com de sorriso nos lábios, e com um olhar que abarca o mundo. Detive-me num assombro. Tive que confirmar se eras de facto real e não apenas fruto da minha inquietante imaginação. Ousei e atrevi-me a atravessar precipitadamente a rua, sem pensar nas consequências, sem esperar pela passadeira mais próxima, afinal eras tu! O tu que mesmo nunca o sabendo, sempre me prendeu. A circunstância não era para menos, e assim obrigava. Eu entreguei-me quase que instintivamente. Os reflexos não funcionaram, e eu limitei-me a ficar preso no teu encalço. Espreitei ainda à distância incrédulo, como se sempre te conhecesse, como se sempre tivesses feitos parte de uma fracção de mim até então adormecida. Como se fosses a personagem perdida de todos os meus sonhos, eu precisava de te encontrar, e como que por encanto estavas ali para à minha frente, à distância de uns meros passos. Enfrentavas-me com o olhar desafiador, não de desconfiança mas de quem encontra alguém estranhamente familiar, do qual não se recorda bem de onde. Ainda resistimos como que a provocar o tempo, hesitámos o inadiável e inevitável passo em frente, por um fracção de milésimos de segundo, nada que fosse o bastante para nos deter.

Talvez o sonho que é nosso esteja em contagem decrescente - afinal como tudo o que nos rodeia - E o avançar da hora só possua o condão de o aproximar da extinção, do momento crucial do seu final. Sabes já que me conformei que o assim seja. Não me importo que tenha os dias contados, definhando sem possibilidade de o contrariar. Na realidade já me presenteaste com mais do que eu sempre mereci. Quando tiveres que partir rumo ao teu destino traçado, não serei eu a colocar qualquer barreira no percurso. Aceitarei com toda a naturalidade que me for possível, e sentirei a mesma admiração por ti, tal e qual como agora, à presente data. Continuares a possuir a mesma magia o mesmo encanto, serás aquela que me conquistou num ápice. E não cobrarei nada. Afinal quem ficará eternamente em divida serei eu; Nunca tu.

Invariavelmente isso irá ocorrer. Mas eu exibirei com orgulho as noites onde foste minha, onde partilhámos o mundo, onde éramos as duas metades que uniam um todo férreo. Nas horas onde tudo o que existia se resumia a pouco mais que as nossas duas almas numa sintonia sem precedentes. O mundo podia parar de girar, que provavelmente nem nos iríamos aperceber. E mesmo que nos apercebêssemos aposto que nos riríamos do facto. Na realidade a importância que lhe atribuiríamos seria mínima, face ao que nos unia.

Peço-te. Quando te fores para sempre, não o anuncies em tom de despedida, promete-me antes que me pegas na mão. Que me levarás a levitar uma última vez, no nosso prado secreto. Afinal é essa a última imagem que quero acondicionar tua. Não quero que me apresentes mudanças repentinas. Não quero que verão seja inverno de uma assentada. Não quero que tenhamos que separar águas. Não quero ver-me de um lado da margem e tu noutro, enquanto trocamos adeus, acenos de forma atabalhoada e quase esquiva de quem se evita, por ter consciência de não se quer largar. Quero decorar o preciso local onde sempre estivesses à minha espera para um primeiro encontro. Quero deixar pistas claras pelo percurso fora. Mesmo que o caminho por onde tenha que percorrer seja órfão da tua presença. Quero que me deixes gravada a rota correcta para que sempre que precise, saiba que estarás invariavelmente no mesmo sítio de sempre à minha espera sem qualquer espécie de oscilação.

Marquemos lugar num dos mil lugares, que foram nossos. Sinto que também os visitarás. Encontrar-me-ás eventualmente por lá. Por aí viveremos sempre como metades inteiras, fomos tocados pelo poder da imortalização. E isso nada nem ninguém me poderá saquear. Quando pensares em partir, coloca a tocar baixinho a nossa canção. Saberás, como eu, que nos encontramos contidos na mesma. Parte mas conta-me um segredo quase secreto. Diz que ficas e que me levas contigo, independentemente do destino escolhido. Ninguém nos disse que o caminho seria fácil. Mas não permitiremos que vivalma nos acuse, de não termos tentado. Temo-nos a nós.

23 comentários:

Lia* disse...

simplesmente lindo!!! :D amei o texto.. confeço que tenho medo d comentar e de certa forma "estagar" algo que esta simplesmente perfeito! :)

ha sem duvida sentimentos muito fortes nest blog e isso nota-se na tua escrita e na maneira como consegues despertar uma curiusidade em ler mais e mais :) pelo menos cmg é assim...

beijinho

'stracciatella disse...

Começo a ser vulgar, mas o texto está muito bonito! Gostei muito do final, até porque parte do que escreveste não é algo que me seja pouco familiar.

Um beijinho *
'stracci

Bárbara Filipa disse...

Muito obrigada pelas tuas palavras :)

Mas que texto, André. Mas que texto. Está mesmo bem escrito e.. Lindo! :)

Beijinho*

Guy de Maupassant disse...

O texto está muito bom, carregado de muito sentimento.

Pense apenas em substituir encontraras-me (último parágrafo) por encontrar-me-ás; isto porque presumo, pelo contexto, que queira usar o futuro em vez do mais-que-perfeito.

Às vezes no melhor pano cai a nódoa.

Cumprimentos
RM

Rosa Cueca disse...

...quando continuamos a procurar sem ser preciso dizer :)

messy disse...

Quando fico ali ao lado online, entro em mais um estado zen do dia (:

Adoro ler-te, isto é talento*

ADEK disse...

Oh, é apenas um texto, nem sequer muito longo, mas ao chegar à parte final já deixa nostalgia:) *

Katynha disse...

Epah *_*

L.A disse...

Admiro a forma como a procuras, mesmo numa pequena grande estrela...Mas admiro muito mais a forma como a encontras...
Absolutamente perfeito...

Beijinhos

Caty disse...

Ok... quando me identifico num texto, ou num momento da minha vida que esse texto ilustra (o que não é fácil) tenho sérias dificuldades em comentar....

Aliás, acho que dá para ver lool, dei conta no momento que postas-te isto e vi a minha situação retratada nele lool.. ya lamechas :P

Por isso tive que pensar uns dias no que te ia comentar...

Pensei em comentar algo pessoal, mas isso ia interferir no teu texto.
Peisei em comentar algo no texto, mas nem me atrevo lool.

Por isso, fica apenas um beijinho e parabens, mais um bocadinho e fazias-me chorar loooool.

kiss

Mafalda disse...

Já tinha saudades de passar po aqui.
As palavras são poucas mas os elogios imensos: adorei :)

Wahine disse...

Adorei o texto.
Muito bom ;)

*

Pés de bailarina disse...

Tenta sempre.
Cai e ergue-te ainda com mais força (:

Maria disse...

Cada palavra lida, cada emoção sentida..

Mais nada há a dizer.

Beijinho.

Alexandra disse...

(Isto é verídico,estou há meia hora a tentar escrever sem que me trema a mão)
Bem,cada vez mais admiro-te a um expoente astronomicamente medido.Juro-te que nunca umas palavras foram tão massivas para a minha alma como estas.
Tento agarrar-me a um fio condutor de um raciocínio que me faça comentar dignamente cada palavra,frase e parágrafo deste texto absolutamente completo. Cada vez que tento achar um defeito para que ele não me marque tanto quanto o fez é impossível achá-lo.
A tua mente e coração unidos neste texto(presumo eu) contêm a essência mais preciosa qual diamante lapidado com a mais poderosa mestria.É magia e realidade tão cruamente talhadas à semelhança que dizer mais que isto é pecado divino.

Parabéns,como sempre.

Beijinhos*

' Claudjinha disse...

não te sabia meu seguir. o meu muito obrigada :) escreves lindamente, estás de parabéns (e não estou só a ser simpática). beijinhos

João Pinto Costa disse...

Escreves muito bem,visita o meu blog onde coloco os mails que crio e envio para meio mundo mais as respectivas respostas:

http://maildeumlouco.blogspot.com/

Acho que vais gostar.
Espero que te divirtas a ler.

Sapatos de Lacinho disse...

Lindo!

:))

Joli disse...

Eu já vou ler o teu texto :P Vim aqui só para pedir desculpa por não te ter respondido logo ao teu comentário, e que o vou fazer daqui nada!!! ahahah

Joli disse...

Oh bolas, eu vou-te bater! Está lindo, ai... *.* Quase (quase!) me fizeste chorar ahah Tu tens o dom da escrita, disso te posso garantir. Se esta história for, de facto, real, tens que lhe entregar este texto! xD É impossivel resistir a um texto tão belo ^^

Beijinhoos!

P.s. Eu depois quero ver se escrevo um post a relatar a minha ida a Óbidos e Caminha... a ver se arranjo tempo :P eheheh

Joana ' disse...

"Ninguém nos disse que o caminho seria fácil. Mas não permitiremos que vivalma nos acuse, de não termos tentado. Temo-nos a nós."

Sem dúvida, o final perfeito para um texto perfeito.

Não posso dizer que faço tuas as minhas palavras porque seria incapaz de pensar numa conjução de frases tão completa e bela, no entanto, digo-te que compreendo cada linha majestosa do teu texto, que as sinto um bocadinho minhas porque a tua história é, um bocadinho como a minha.
Há pessoas que dão sentido à nossa vida, mais até do que aquele que julgávamos possível. Com elas tudo nos parece perfeito, tudo nos parece alcançável. O problema reside no "para sempre", no final feliz...
De qualquer forma, apesar do término, temos sempre algo a que nos agarrar - uma música para ouvir, um livro para ler, um cheiro para sentir, um objecto para tocar, um sítio onde ir - para nos lembramos, apesar de a memória não deixar esquecer, que um dia, visitámos a felicidade... Tivémo-la porque arriscamos e lutámos por ela!

E isso, só tu consegues transpor para palavras desta forma, desculpa-me a constante repetição, tão perfeita...

Mil obrigadas por me proporcionares um tão belo momento de leitura. Foi, sem dúvida, um enorme prazer.

Um beijo *.*

- miriam disse...

estou de boca aberta ! , vou seguir claro !

sabe tão bem uma boa escrita ! , a mim pelo menos , faz-me bem (:

beijinhos , Débora Contente

Iúri Zúluri Revel Regueiro disse...

boa amigo..bem nem sei como vim aqui para mas pelo titulo..Rebelde chamou me a atenção.....

gostava que viesses ao meu blog ver na primeira pagina os textos..

Variações de um Rebelde....

tem varios capitulos..espero que gostes...abraço

Jah bless