sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A Corrida


Tratei de calçar apressadamente o meu par de ténis nike Air Zoom, fluorescentes. O corpo e a alma reclamavam. E eu juntava-me a essa lamúria crescente. Tinha pressa em colocar-me em passo de corrida, em movimento, numa esperança vã de quase fugir, liberta-me dos pensamentos que me atordoavam, percorrendo avenidas pelo cérebro fora. Ofereciam-me constantes inquietações, visões dúbias de respostas incógnitas e inconstantes. Bati com a porta e corri, a marcha encetada afinal só me empurrava para mais perto, aproximava-me. O vento soprava-me levemente até ti.

O iPod insistia em debitar-me aos ouvidos, agudos e graves, frases de incentivo revestidas de melancolia que não apoquenta. Àos acordes juntavam-se palavras proferidas pelos inevitáveis Oasis, que reinavam a belo prazer. E aí já levitava, já não sentia os pés calcarem no chão. Involuntariamente – ou não - sei que nos irei encontrar, retratados algures, em muitas daquelas linhas de letras vociferadas a preceito. Irei tomar como nossas, frases dirigidas a outros, ainda assim, tratarei de reclamar a sua posse, equivocando-me dos alvos a quem se destinavam anteriormente.

A marcha prossegue num passo acelerado, pautada pelo bambolear do coração. Apercebo-me instantaneamente que sem qualquer rumo nem direcção. Não estremeço. Ainda assim se fechar os olhos, sei que o coração tratará de me guiar de forma mais eficaz do que qualquer piloto automático. Conseguirá levar-me através de um percurso sinuoso, mas que só possuí um destino, sem qualquer escala nem paragem abrupta pelo meio. Cruzo-me com rostos fugazes e disformes de desconhecidos que me esboçam não mais que um tímido olhar, questiono-me se algum terei o privilégio de decorar os traços da tua face, a esta escala de proximidade tão assustadoramente real. Gravá-los na mente de modo a quem possam perdurar e viver em mim, que os possa visitar sempre que deles sinta saudade.

A noite ainda não caiu, não preenche o céu por completo, mas ofegante, sento-me ansioso no mesmo banco do velho jardim de sempre. Como seria diferente se o conhecesses tão bem quanto eu. Certamente que aqui esperarias por mim de sorriso posto à minha passagem. Trocaríamos gracejos. Dançarias para mim, e eu iria oferecer-te um flor colhida no momento em jeito de recompensa pelo teu superior desempenho. Voltaríamos amanhã. Não posso deixar de sorri face à ironia do destino. Insisto e aguardo pelo romper da primeira estrela. Os pensamentos são enfim consumidos e vencidos pelo cansaço, que agora já dá de si. As dúvidas diluem-se. Tenho como certo que me perdi nas horas, observo janelas elevadas, onde famílias convivem e partilham à mesa histórias de uma história diária repleta de monotonia. Parecem-me felizes no seu trejeito mecânico. Deixo-me ficar, apesar de querer ir para junto de ti, em busca da tua essência característica. Sei que já perdi essa luta. Mesmo antes do seu início anunciado, como tal posso demorar-me comigo mesmo.

Provavelmente o muito da nossa história, já se encontra escrita num qualquer romance editado. Não o comprei, nem preciso de o ler para conhecer de olhos fechados, qual o meu papel, os meus gestos, todas as minhas falas e acções consequentes. Há em mim já tanto de ti, que se contasse levaria para lá de uma eternidade. Sinto uma vontade eloquente de saltar uma imensidão de páginas, devorá-las com afinco e desbravar o derradeiro desfecho. Detenho-me nessa inquietação. Quero continuar a escrever capítulos e contar com o contributo da tua mão.

A marcha cessa num trilho que não se escolhe de livre vontade, surge como uma imposição do coração. Não o conseguimos combater, nem queremos contrariar a direcção imposta pela corrente. Pouco nos importamos se cortamos a meta. Se sairemos vencedores, ou vencidos com uma ferida do tamanho do mundo. Afronto a porta de casa, suspiro e dou-te as boas noites.

23 comentários:

ADEK disse...

"Frases de incentivo revestidas de melancolia que não apoquenta" é uma expressão que verbaliza de forma perfeita algo que já senti muitas vezes em situações equivalentes ao que descreveste. Adorei o texto:D

Beijinho*

Joana ' disse...

Não me canso de te dizer, as tuas palavras encantam-me ...

Beijinhos

Nessinha Moreno disse...

Ahh Andréee!
Ler é uma coisa que gosto muito, sempre gostei. Mas ler-te faz com que eu aumente ainda mais o meu prazer e ânsia de ler.
Cada linha lida, envolve-me e faz com que sinta-me sentada no banco ao lado, vendo-te esperar pelo brilho da estrela que tanto queres ver.

Muito boniito.

Beijooos.

L.A disse...

Simplesmente lindo andre, lindo +.+

ClaudiaMar disse...

Acabei de ler-te e curiosamente receber um comentário teu. Huumm, conheço a editora da Plátano, que editou o livro Dicas de Beleza (blog mini-saia)... Se estiveres mesmo inteeressado posso dar-te o contacto dela... Mas já apresentaste "matéria prima" a alguma editora? (Vou cobrar o que me prometeste neste último comentário!)
KISS

- ROSE ™ disse...

que texto mais bonito. :D
está mesmo .. algo de especial ;)
beijinhos :DD

Lois disse...

Continua a ter capítulos..a brindar-nos com o romance onde és personagem principal..
Continua a Correr para ela,quando ela parece fazer-te levitar.
Continua..apenas.

L' disse...

Obrigadaa *____*
adoro os teus textos, adoro a segurança com que escreves e descreves ( :

Vou seguir, sem dúvida ;D

MaiorBeijinho _*

P.S. amo Oasis «3
também gostas ? ;D

Gislãne disse...

lindo
\o/
:*

Out of the blue disse...

Muito bom! A estrutura, o ritmo, as palavras, o teu modo de dizer sentimentos... adorei!

Caty disse...

Por vezes, por mais que se ande, todos os caminhos vao ter ao mm lugar, mm sem dar-mos por isso. E aposta no sonho k de certo o realizas :P.

AnaLuísa disse...

senti-me como se estivesse ao teu lado. descrição, detalhe, envolvência. escreves bem :)

obrigada por me seguires. beijinho *

L.A disse...

Não posso deixar de te agradecer pelo comentario... Foi de uma extrema simpatia, que tenho mesmo que agradecer...
É sempre bom saber que alguem que escreve como tu gosta das letras que conjugo no papel...

Um abraço "rebelde" (:

Martina S' disse...

Pois, eu também vivo várias assim, foi por isso que identifiquei facilmente (:

E obrigada pelo apoio :)

Beijinhos*

PEDRO PINA disse...

nao conhecia o teu blog, nao sei como vim aki parar... mas parabens! Gostei! abraço

Mafalda =) disse...

Gostei 5*. Beijo

Ladybird. disse...

Com saudades dos teus comentários e para não variar, encantada com mais um texto teu*

Sara disse...

Andava eu a diambular por vários blog's quando me prendi nas tuas palavras....
Gostei muito fdeste texto, tenciono voltar

Parabéns pelo Blog

Ademerson Novais disse...

cara escreve maravilhosamente...adorei ler teus textos aqui...é muito bom quando caimos num lugar assim onde a narrativa nos prende...

Ademerson Novais de Andrade


espero que um dia visite meu blog....

Ana disse...

Nem ao tentar espairecer ela te sai da mente... ;)

I Believe disse...

Como gosto de "te" ler...Adoro a imensidão das tuas palavras, solta-mse com tal facilidade que mais parecem voar de tanta expressão e liberdade contida***

Guy de Maupassant disse...

Se (efectivamente) correr como escreve, temos maratonista!

Passarei por aqui mais vezes.

Cumprimentos
RM

messy disse...

identifico-me com algumas coisas por aqui escritas (: