segunda-feira, 14 de junho de 2010

06:09m

Pela minha mente madrugada fora, ainda ecoam e vagueiam pelo quarto, vozes delirantes que se abatem sobre mim, vezes repetidas. Frases tuas, expressões que esboçavas quando te passeavas a meu lado e caminhavas de forma inocente num abraço apertado acompanhado por um passo certeiro a dois. Rasgo uma última fotografia, enquanto deixo cair mais uma lágrima teimosa. Na esperança vã que talvez assim a dor desapareça, as recordações cessem definitivamente. Olho mais uma fotografia onde ainda me sorris, datada de fevereiro transacto. Contemplo-a com um último olhar de nostalgia, e primo o botão delete no telemóvel. Não quero mais as mensagens revestidas de falsidade, que com tanto orgulho as guardei para mim, como se dos mais preciosos tesouros se tratassem. E para mim eram, e valiam definitivamente mais do que qualquer ouro reluzente. Passam-me pela mente imagens em formato cinematográfico, que ficaram gravadas de locais, onde eu acreditava termos sido felizes. Afinal tudo não passou de uma felicidade unipessoal.Só por mim interiorizada.

Eu acreditava na ternura do teu sorriso, no enternecedor olhar com o qual me contemplavas ao longo de um dia de sol, ou mesmo de chuva. Tu brilhavas à minha vista, onde quer que fosse, em qualquer cenário. E lembro-me de chegar a correr de uma viagem cansativa de horas, tão ansioso por te ter nos meus braços e não mais te largar. Reluzias com a minha presença, e eu acreditava com a crença de um fiel que se submete a sua religião sem nada questionar, de corpo e alma em uníssono. Acreditei tanto em ti, que hoje me é impossível acreditar no que quer que seja mais. Em quem for, perdi essa faculdade, que me era tão pura. Tamanha foi a ferida que causaste no centro da minha alma. Abalaste a minha fé nas pessoas, na veracidade que apresentam. Causaste danos irreparáveis.

Quanto mais junto peças do puzzle desconchavado e disperso da peça teatral que sublimente encenaste, na qual me transformaste em actor sem o meu conhecimento e sem minha vontade própria. Apercebo-me da imensa negritude e maldade dos teus actos. Apercebo-me do quanto colocaste em cheque os meus sentimentos, o meu amor próprio o meu orgulho e reduziste-os a pó. Na realidade mataste muito daquilo que fui, deitando tudo isso que fui culvitando ao rio. Muito daquilo que contigo e a teu lado descobri, ou pensava ter descoberto, porque tudo não passou de apenas e só falsas ilusões, enredos vestidos de obscuras mentiras. E à medida que vou juntado as peças, e que o novelo se vai desenleando, o mesmo vai revelando faces monstruosas de actos que jamais supus tivesses capacidade de me fazer. Eu que fui, companheiro fiel de horas amargas, eu que contigo exaltei nas nossas conquistas, nas nossas vitórias. Se eu não te amasse, assim daquela forma tão desenfreada e apaixonada, teria tido o discernimento e o bom-senso de observar a realidade com a clareza, que me permitisse concluir que na verdade, não escrevias o meu nome nas estrelas como juravas a pés juntos. Doí-me ter agora a noção, de ter conhecimento que nas tantas noites que passámos abraçados, o teu coração afinal não estava ali presente na nossa companhia, tinha sim voado para outro lado bem longe do nosso quarto. Enquanto isso, tu emitias vocalmente algo que aos meus ouvidos soava a melodias de amor. Soava a um Amo-te verdadeiro. E mantinhas-me prisioneiro de tal mentira. E o meu erro foi esse. Foi ter confiado no teu pretenso e mascarado amor. Fizeste de mim parte de um carnaval singular, sem festejos, sem sorrisos de felicidade, mas sim revestido a teimosas lágrimas de tristeza que carrego. Não vale mais chorar por ti. Dizem-me e repetem-me, tentando empurar-me para o trilho correcto e acordar para a realidade. Mas é sempre mais fácil falar do que executar. Eu prometo e digo que sim com a cabeça, mas o coração esse não colabora, masoquista mantém-se ligado a ti sem se querer desligar, não querendo acreditar, no que os olhos observam. Eu esboço um sorriso, mas é algo meramente temporário, mesmo forçado, para que os demais fiquem aparentemente confortados com a minha pseudo-alegria. Já basta o meu sofrimento, não quero que o carreguem por mim.

Não tenho medo de exibir ao mundo e patentear a minha tristeza, não a vou ocultar. Eu olho para trás, e quero que subsista a minha genuinidade. Serei sempre fiel aos meus sentimentos por mais que eles me tragam verdadeiros disabores. Em forma completamente oposta a qual tu os trataste. Trastaste-os como meras palavras que perdiam o significado a partir do momento que partiam velozes da tua boca e se dissolviam no ar. De mim sempre obtiveste certezas firmes de um amor incondicional e dedicado. De ti, hoje, consigo vislumbrar que nunca o foi assim. Brincavas com as palavras à medida das tuas verdadeiras necessidades. Magoaste-me vezes sem fim. E agora apresentas argumentos que roçam o ridículo para o final abrupto da nossa relação. Apenas meras tentativas falhadas de justificar os teus actos injustificáveis. Mas digo-te, que não precisas de fingir mais, em nenhuma circunstância, encenar mais uma das tuas brilhantes actuações.

Eu caí em mim. Tenho noção do infortúnio que me sucedeu. Foi um grande precalço, para quem como eu, acredita piamente no amor, na força de um sentimento lindo, que tu meramente simulaste e destroçaste por completo. Tive azar, realmente muito, diga-se de passagem. De no momento errado, ter-me cruzado com alguém que apenas se aproveitou da minha ingenuidade em relação a tamanho sentimento tão nobre, para se apoiar enquanto precisou de um ombro a quem recorrer. Um ombro que depressa abandonou, quando obteve o que sempre quis. Mas é uma lição que precisamos de passar, gravar em nós, mesmo enfrentar. Um rúde teste, para nos mostrar e guiar-nos para o trilho correcto. De modo a distinguir as pessoas más, das realmente boas e sinceras. Necessitamos de passar por um conjunto de provas ingratas, comos aquelas por que passei. Temos que correr atrás, empenharmo-nos ao máximo, dar tudo de nós, e mesmo assim bater com a cabeça no murro, e esbarrar de encontro a um conjunto de falsidades. Precisamos de nos dar mal, que nos façam sofrer, como agora fazes comigo. Só assim, ganhamos as armas necessárias, para enfrentar esta travessia desértica. Contigo aprendi muito, foi aluno atento numa primeira fila, numa sala de aula, de como não se deve nunca magoar e tratar alguém. Tu foste o exemplo supremo daquilo que nunca desejarei ser para outro alguém. Obrigado por me abrires os olhos chorosos que apresentam por hora um estado lastimável, para a realidade dura, que é (sobre)viver a este conjunto de adversidades.

Hoje sinto-me, tão pequeno e insignificante, diminuído, quase como se não existisse pelas tuas acções. Espremido e abandonado no seio destas quatros paredes que se transformaram num refúgio. Aprendi à minha custa, a valorizar cada vez mais os sentimentos. A valorizar quem realmente de nós gosta, sem segundas intenções, sem exigências ridículas e argumentos tenebrosos, que envolvam carros para passear, ou quebras de rotina em relações pseudo-monótonas que puramente não existem. Tais argumentos ridículos e irrisórios, para conjugar e catalogar um sentimento tão puro como é o amor. Que nada pede em troca. Que nada exigue, senão a presença por perto de que nos quer bem em perfeita sintonia com o bater do nosso coração. Leio e releio textos e desculpas, que de tão esfarradas parecem ocas e vazias de qualquer conteúdo. Obrigo-me a rir, para não chorar, face ao que tenho diante dos meus olhos. E sinto-me tão pequeno. Tão pouco valioso. Talvez porque hoje sei e tenho a noção que o teu coração nunca bateu ao sabor do meu, em consonância como se de um apenas se tratasse. Mas bato-te palmas, por tão brilhante actuação, duvido que alguém tivesse a capacidade que só tu tiveste de me ludibriar.

Tento repousar, mas só esta folha vazia e em branco que agora preencho, me acompanha e apazigua momentaneamente a alma. E é para ela, minha fiel companheira, que transponho aquilo que transporto no seio do meu ser. A dor não se liberta, mas através das palavras que esboço, retiro do meu cérebro uma torrente de angústia latente, que me possui e me retém num estado angustiante. Vejo-te como uma figura de um quadro pintado por uma palete de cores surreais, que não existem e que agora se desvanecem ao toque. Todo ele se quebra como o seu esplendor artificial e se extingue como se nunca tivesse existido, tal e qual o teu amor por mim. No dia em que já não cá estiver para contar, estas palavras sobreviverão e tratarão de imortalizar os acontecimentos passados. É este o meu legado. Aquele que sonhavamos um dia, compartilhar e exibir ao mundo, como a mais bela história de amor de sempre. E tão longe que me encontrava da verdade. Hoje revejo-te em sentimentos impuros, baseados em mãos cheias de nada com as quais me presenteaste. Afinal o conto que fadas, me que fizeste crer e mesmo viver, não possuia qualquer princesa. Era não mais que um beco sem saída, um labirinto de tortura, um poço sem fundo de desilusão, onde continuo a procurar em vão por ti, pela porta de saída, raiada de felicidade que não existe, jamais aparecerá.

Ontem foi o dia que verdadeiramente não terminou. Não teve fim, fiquei preso à frieza das tuas palavras que me desarmaram e me deixaram caído por terra. Sem que me desses sequer uma mão. A mão que sempre te estendi, fosse em que ocasião fosse, jamais te abandonei. A minha continua por cá, enquanto observo à distância a tua a desaparecer num horizonte perdido e longínquo, partindo na direcção de outrém. Hoje podia dizer que preciso do teu abraço, mais do que nunca, e como preciso dele, mais do que em qualquer ocasião, ou altura. Mas relutante não o quero, mesmo que o meu coração me implore por ele. Não quero provar novamente o seu trago a falsidade. Foste a pessoa por quem suspirei dias a fio, independentemente do teu humor, eu ficava feliz, só de escutar a tua voz a que distância fosse, mesmo que no fim do mundo. Mesmo nos dias menos coloridos, a tua presença iluminava a minha alma, mais do que qualquer sol no pico de uma tarde de verão. Mas hoje, que sei e tenho plena consciência do que te escondes por detrás da malfadada máscara com a qual sempre me contemplaste e distorcias o meu mundo de forma cruel. Não quero voltar a visualizar essa máscara que tanto me trouxe de bom como de mau. Ofereceste-me o pior e o melhor, tal e qual um sentimento agridoce que teima em não nos abandonar. E é assim que me mantenho neste impasse. Parado deixo as horas correrem, até que a noite por fim se transforme em dia, enquanto tu repousas no teu sono tranquilo e despreocupado. Não podendo deixar de me relembrar que um dia me acompanhaste em tais aventuras nocturnas, e fomos os dois com um só a ver o sol nascer radioso lá fora. Momentos que agora vivem lá bem distantes, onde não os posso alcançar.











4 comentários:

Philipa C. disse...

Admiro imenso a forma como consegues mostrar o que sentes com as palavras, pois nem sempre é fácil escolher as palavras certas. Mas tu consegues. Não deixes de escrever!
Dos textos que li, adoro! Fazes parecer o desenrolar de um filme só com palavras. Perfeito.

Beijinho*

Rebelde disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rebelde disse...

Obrigado, obrigado, mais uma e outra vez! Por vezes é fácil deixar-mos as palavras soltarem-se e desprenderem-se de nós, principalmente, quando nos saíem de forma fuída do centro do coração. Acabam por se tornar um mero reflexo do que carregamos na nossa alma, e que necessita urgentemente de deitar cá para fora. Por vezes saíem em forma de palavras, noutras ocasiões talvez em sentimentos menos alegres. Mas é a vida, não é? A velha história de só com os erros aprendemos.
Vou tentar não deixar de escrever nunca, até porque é algo que aprecio bastante, algo que me liberta, e trás alguma paz momentanea. E que no caso presente, ajuda e contribui imenso. Pois faz-me sentir mais leve. E o feedback que recebo, anima-me e dá-me força para continuar de pé.

Muito obrigado por gostares assim tanto, e de te dares ao trabalho de ler as minhas meras palavras. ;) Para mim isso é força para seguir em frente.

Beijinho *

PurpleSu disse...

Nunca guardes nada, explode sempre. Deita tudo para fora.. no papel, no ombro de um amigo, num choro momentâneo..
tudo o que é guardado em sofrimento corrói..

beijos