sábado, 2 de outubro de 2010

Tela vazia. Retrato de um Domingo.

Confundo-me com um domingo vulgar. Os domingos são assim, telas vazias. Ecoam desprovidos, escasseia o ruído abunda o silêncio estridente. Um domingo é nostalgia que caminha discreta sem se deixar ver pelas ruas desérticas, sem deixar vestígio à espreita. Vai incendiando tudo aquilo em que um dia ousei acreditar. Cometi momentaneamente a imprudência de pensar que num destes dias conformes, seria completo de felicidade de facto. Limito-me por ora a ser, ser resto. Resto de sonhos; resto de almas esventradas e destroçadas de coeficientes incógnitos que causam pesar. Retiro às palavras brilho, tendência suicida de as embelezar e abrilhantar com o que de real nada possui. Martírio numa envolvência crescente que se apresenta mascarado de veracidade.

Tento apressadamente fugir à vulgaridade com que me assemelho. Sombra de um Eu maior, que passeava triunfante, com a perdida e longínqua áurea, que agora se desvanece em pedaços desconformes. Quando quase te encontrei naquele acaso, como sempre acontece, pensei estar insano e perdido. Ter batido à porta errada. Olhei a rua duas vezes, num trejeito de confirmação. Observei-te e continuavas no mesmíssimo local, onde te encontrara. Ali estavas tu, davas-me troco, parecias feliz. Fazias-me crer vencer a curta distância que nos sustinha separados. Senti-me num ápice abastecido de contentamento. Vi-me impelido como um satélite fora de rota e controle, de encontro à tua invulgar capacidade de preencher os meus dias sisudos, transformando a minha expressão facial em sorrisos que perduram. Senti-me tentado a retribuir-te na mesma moeda. Mas assim que olhei para mim, encontrei-me de mãos cheias de um nada que se esvazia perante o tudo que era a tua feição imaculada. A mim confundi-me com a ninharia, que tudo lhe falta. Vejo-me correr neste circuito fechado, neste círculo demasiado perfeito, de modo a apresentar brechas por onde escapar. No percurso nenhuma escapatória possível fora detectada, a fim de virar costas a esta triste dormência, velho fado sabido.

Sempre falho. É fácil falhar quando me vejo no papel principal, maestro de banda que não afina, tentativa após tentativa forçada. Não gosto de domingos, como poderia não gostar de sábados. Afligem-me a alma, consomem-me o calor que vai sobrevivendo ténue. Em paralelo com a relatividade da tua presença espiritual, física ou vice-versa. Tudo é relativo quando não partilhamos o mesmo chão. Quando não existem mãos apaziguadoras para acalmar. Lembro-me de despedidas forçadas, efectuadas em domingos nocturnos. Ruídos de comboios estridentes a partir rumo ao desconhecido pardo. Ficam os sonhos que não ousamos contar, ou mesmo realizar. Falta de coragem ou medo de ir mais além, há quem diga.

8 comentários:

Nuria disse...

Uau escreves super bem! Que fluidez ..

disse...

Brilhante! Revi-me nestas tuas palavras e senti uma certa nostalgia...
"Ficam os sonhos que não ousamos contar, ou mesmo realizar. Falta de coragem ou medo de ir mais além". Por vezes, é mesmo isto que eu sinto...
Parabéns por mais este belo texto!

*flor* disse...

Quando for grande quero escrever como tu! :)
Também não gosto de domingos, há quem diga que é dia de descanso, para mim, tem sabor ao desassossego de um 'Adeus' que não se diz, mas que nunca deixa de se concretizar.

Beijinho* ^^,

Franklin disse...

Muito bem escrito!
Parabéns!

Poetic GIRL disse...

Os domingos têm esse dom de despoletar em nós um sentimento de nostalgia, de apatia... bjs

ana macedo disse...

gostei do teu blog , da tua escrita e dos teus gostos musicais (:
convido-te a seguires o meu blog*

Catarina Costa disse...

Está brilhantemente escrito. Gostei muito (:

marisa machado disse...

oh, escrita maravilhosa, continua a escrever (: