quarta-feira, 23 de junho de 2010

forget this fairytale.

Espero que a noite caia para sair sorrateiro à rua. Ombros descaidos, sem grande apreço pela figura que momentaneamente encarno. Sou tal e qual o vilão improvável que caminha nas sombras escondido da multidão. Não quero que vejam o meu rosto raiado de lágrimas, angustiado. Transformado num resto de nada que deixaste e aprisionaste em mim. Que caprichosamente teima em não me abandonar, retém-se em mim morosamente. Caminho sem sentir o roçar dos meus pés frios de encontro ao chão sujo de uma rua maltratada. Só quero o silêncio e a escuridão que uma rua deserta me proporciona. Só eu e o nada, um dueto improvável. Rua vazia de tudo, tal como eu. Sem mais ninguém à vista que me possa olhar, questionar, ou mesmo destilar um olhar de mera compaixão. Rejeito a visualização do meu olhar, da minha imagem ao próximo. A tristeza que em mim transparece, é não mais que o reflexo cruel e sincero da minha alma obscura. Sintonia que vai de encontro a mim, ao meu final. Vou ouvido uma nota musical já distante e dispersa, que me faz relembrar um momento de nostalgia passado. Só o meu velho iPod me acompanha nesta demada.

Tento encontrar uma maneira de me suster em pé, aqui, mas nada é fácil. Equilibro-me dificilmente, afinal Tu partiste. E eu perdi todas as minhas faculdades. Esqueci-me de como sorrir. Apagou-se da minha memória a forma de articular os músculos faciais, desenhando um gesto automático, que se assemelhe a tal esboço perdido no tempo. Perdi a noção de felicidade. Caminho desamparado neste deserto agora quente, das noites de verão que já chegaram sem quase dar conta disso. Em tempos passados foram nossas. Ou será que foram minhas. Apenas e só, como tudo o resto. E hoje apesar de nada já ter a mínima importância. Continuo estagnado no tempo. Preso sem fluidez, na hora precisa, em que num simples minuto, destruíste sonhos que foram erguidos durantes meses. Paraste o relógio da nossa união. Quebrando com ele o resto de tudo o que nos prendia. As nossas almas viviam à medida uma da outra - aparentemente. Só eu visualizei no espaço essa prespectiva peculiar.

Hoje, enquanto caminho, só posso afogar dentro de mim, esta mágoa que teimosamente se aloja sem pedir licença no coração. Vejo-te desvanecer cada vez mais lá ao longe. Vais desaparecendo de forma fugaz por entre os recantos e becos da densa neblina nocturna. Até por fim te dissipares. Tento-te apagar de mim, mas nada é fácil. Existem demasiadas marcas circunstanciais que percorrem e toldam todo o meu corpo. Envolvendo-me - ainda - em ti. Apetece-me por vezes, perder-me nessas recordações, navegar ao sabor desses momentos e por lá manter-me por período não estipulado. Mas tento ser racional. Chamar-me a mim próprio à razão. Oh tarefa ingrata. A verdade, é que jamais voltarás. O teu amor por mim morreu. Simples, débil e doentio. A tua perda, é para mim uma doença, para a qual não possui-o qualquer espécie de cura. Porque nunca existirá cura alguma, para sentimentos tão puros com os que senti. Verdadeiros, num contraste desastroso com os teus. Não se extinguem verdadeiramente, apenas se alojam em recantos da alma, que vamos camuflando. Escondendo para que não mais façam ferida nem ardor.

Hoje fica e sobra a luta. A dedicação, o empenho e réstias de um grande amor por mim vivido. Imagino-nos num bote, em que só eu dava realmente uso ao remo. E devido a tal circustância, mantínhamo-nos sempre no mesmo local. Rodopiando sobre nós mesmos. Sem avançar ou mesmo recuar. Faltou a força do teu braço, auxiliando o meu. A imagem do teu rosto assalta-me. A tua voz, ao meu ouvido assombra-me. Uma gargalhada num momento de uma qualquer brincadeira abandonada e inocente, que partilhámos continua por aqui presa. Afasto de mim tais pensamentos. Sei que me tenho que afastar de tudo isso. Tenho que destruir, todas estas recordações, estes sentimentos. Antes que eles me destruam por completo. Manter o pouco que resta de mim. O corpo não corresponde. Vou ficando de mão estendida, dia atrás de dia. Até que, quem sabe, alguém num dia remoto pegue nela. E faça, o que um dia eu fiz da tua. Transformei-a na coisa mais valiosa do mundo. Joía que preservava em detrimento de todo o restante. Só queria estar de volta à nossa casa por uma última vez. Mas não encontro mais o caminho que me guie até lá. Ando as voltas. Será que também ela desabou? E sucumbiu ao vendaval das tuas acções de proporções catastróficas. E é neste momento, não mais do que meras cinzas. No auge do desespero, considerei vezes demais, perdir-te para fazeres de conta. Só queria por mais uma noite, acreditar nas tuas palavras. Tudo fica bastante mais difícil sem ti aqui. E se nos sobrasse apenas um dia. Serás que voavas até mim. Deitas-te tudo a perder. Enquanto eu gritava em surdina com as poucas forças que me restavam. Semeaste o silêncio. E apenas sobrei eu, para fazer a colheita nefasta.

Agora apenas me resta seguir, ir-te confessando sem palavras. Mudo e calado aquilo que senti por ti. Vou-te contado os meus dias, acontecimentos diários, fúteis ou relevantes. Por pensamentos largados ao vento, pedindo aos céus que os guiem e encaminhem até ti. Foi o que sobrou de nós. Uma mão cheia de nada. De mim, de ti. Somatório de avessos sem costuras que os unissem. Apenas ficou a conjugação do nada com o vazio de um silêncio agudo, que tudo cala e consente. Desde o dia em que partiste. Vivo sem rumo. Mas hoje não espero mais por ti. Conformo-me no biombo restrito, onde vivo em comunhão com a minha solidão. Ela infelizmente, não me falhará. Não mais.

7 comentários:

Poetic GIRL disse...

A solidão essa nunca nos falha, é a nossa companhia quando todas as outras se esvaem por entre os nossos desdos. Gostei desta partilha... bjs

A Bailarina disse...

Seu blog consegue me emocionar profundamente. De verdade. É muito lindo o jeito que você usa as palavras. Seu blog é lindo.

A solidão se mantém sempre firme, até quando achamos que ela partiu. Ela nunca nos abandona. Gosta de se fazer companheira.

Beijos.

Marta Rosa disse...

'Porque nunca existirá cura alguma, para sentimentos tão puros com os que senti.'
Acredita que te percebo como ninguém, a dor de sermos abandonados por algo que consideravamos nosso, a melhor coisa que tinhamos e que nos fazia sentir Realmente felizes..
Mesmo sem te conhecer, ao ler o teu texto deu-me vontade de te abraçar, e dizer-te que vai passar, por muito que custe e custará vais deixar de sentir essa dor..

Philipa C. disse...

Essa é uma grande verdade, a solidão nunca nos abandona. É a companhia certa quando todas as outras falham.

Ainda bem que decidiste voltar =)

Beijinho!*

kika disse...

Bem que texto lindo. Fiquei emocionada.. Acho q muitas vezes vivemos um amor sozinhos, e qdo nos damos conta deixámos partir aquilo q sempre achamos q era nosso.. Espelhaste de forma perfeita a dor da solidão, da ausência, do abandono. Perfeito. :$

Matilda disse...

É raro conseguir ler um texto tão grande onde o autor não me entregue pelo meio vários momentos de acção, mesmo que simples e passageira, como um passo para o lado, um mexer de uma colher numa chávena de café, etc

Mas li este teu texto de seguida, sem me perder e com gosto, quase quase até ao fim.

Confesso que no ultimo parágrafo já estava meio a ler na diagonal, meio distraída já, sem esse elo de acção que me trouxesse de volta.

Mas gostei.

Voltarei.

Danii disse...

Obrigada por seguires o meu blog.
Gostei muito, estou a seguir :)